Qual a sensação que motiva uma viagem? Qual a sensação que provoca uma música ou um livro? Qual a sensação que te faz entrar em algum estabelecimento e consumir só um café ou uma deliciosa e elaborada refeição? Qual a sensação que te desloca a um museu, teatro ou cinema? E qual a sensação que fica após todos os desejos satisfeitos? Esse é o meu diário de sensações e através das minhas sensações espero satisfazer, aguçar ou provocar as suas próprias...
25 de jan. de 2010
Sensação de Liberdade - Primeira Viagem Sozinha.
O que motiva uma jovem a viajar sozinha?
No meu caso queria desbravar, conhecer, me sentir livre e estar sozinha com meus pensamentos e desejos.
Também queria conhecer a Irlanda e era para lá que ia. Naquela época, ainda havia conflitos do IRA e para tranqüilizar meu pai, resolvi pegar uma excursão de 26 dias pela Europa que passava por 7 países, assim poderia ter uma idéia do que era o Velho Mundo e escolher um lugar para voltar no ano seguinte. A excursão era somente um apoio e antecipadamente já tinha decidido que só faria os tours das cidades, bem como já tinha determinado a programação que faria sozinha.
Aterrizei em solo espanhol e claro, fui conhecendo pessoas no caminho até o hotel. Queria ser invisível, "a menina do cantinho" como diria Liz Gilbert, aquela que ninguém percebe, mas nunca consegui isso! No hotel, os apartamentos não estavam prontos e fui com a "turma" da excursão dar uma volta pelo bairro e almoçar. Naquela época a "turma" da excursão já me irritava. Não consigo entender porque brasileiro sempre precisa mostrar que é brasileiro e que... chegou!!! Chega sempre causando tumulto. Simplesmente não consigo conviver com essa "sensação", de estar no meio de pessoas indiscretas e que não respeitam outras culturas. Sou da seguinte opinião, se você é visita, por favor, comporte-se como o anfitrião ou melhor que ele. As pessoas eram boazinhas, simpáticas, engraçadas, mas já começavam a dar outros sinais que também não me agradavam. Sabe aquela estória de dizer que é "tudo velho" e ficar comparando ao Brasil? E também comparar a comida? Mas por que, então, não foram visitar a ala futurista em Epcot Center? Melhor, poderiam ter ficado em casa assistindo Guerra nas Estrelas e comendo arroz com feijão! Esse é o tipo de sensação que não desejo ter numa viagem. Você pode amar ou detestar um lugar, mas não compare com o seu, simplesmente aceite e aprecie as diferenças.
Voltando ao hotel e entrando no quarto me senti verdadeiramente sozinha e em paz. Decidi dormir para me recompor e sair à noite. Eis que meu telefone não parava de tocar. Era a "turma" querendo me chamar para "fazer coisas". Ali, naquele momento, percebi que minha sensação inicial da viagem começava a mudar. Fui sozinha para "me sentir", para sentir minha liberdade, para saber quem eu era isolada da família e dos amigos e já havia desconhecidos me incomodando. Me arrependi de não ter levado minha mãe, chique, inteligente e culta para ter que conviver esses dias com uma mulherada desequilibrada. O que eu estava fazendo ali naquele quarto em Madri com o telefone disparando? Não queria ouvir um ruído e tinha esse direito, havia pago por esse direito, afinal. Chorei copiosamente de arrependimento e medo de não saber o que fazer ou como lidar com esses desconhecidos que tentavam invadir minha privacidade. Chorava, chorava e chorava enquanto ignorava o telefone.
Peguei o livro "Manual do Guerreiro da Luz", do Paulo Coelho e li todinho, certa de que teria que ser uma guerreira naquele lugar, certa de que precisaria estabelecer uma confiança interna, criar um campo impenetrável ao meu redor e conviver em harmonia com todos, impondo limites. Mergulhei na cama novamente e dormi mais, profundamente.
Quando acordei eram quase 11h30pm e estava morrendo de fome. Me arrumei, desci e sozinha andei pelas ruas de Madri procurando um lugar para tomar meu café com leite e comer um lanche. Achei. Sentei, conversei com o garçon que me deu dicas para tomar cuidado sozinha aquela hora e apreciei aquele momento mágico, estava sozinha na Europa!
Naquele momento e a partir dali eu precisava ser. Ser eu mesma. Nenhuma interferência externa poderia abalar minhas decisões e influenciar minha viagem.
Foi dessa forma que precisei ir sozinha à Europa para aprender a criar um campo inacessível ao meu redor, estabelecer limites expondo meus desejos pessoais e dizendo "não" para descobrir a maior liberdade que existe... a liberdade interna!
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